terça-feira, 22 de outubro de 2013

É possível



Pela minha hamartia, fui punido
Prisioneiro de uma sorte cruel
Não da morte, o temor do corrossel
Me manteve acovardado, escondido

E agora que caminho - finalmente
Confundem-se as pernas, exauridas
Tantos anos na gaiúta ali em frente
Te escondias - como eu - da própria vida

No meio do caminho nos cruzamos
Pouco importa se por sorte ou ironia,
A vida não nos deixou, por um triz

Hoje o peso um do outro, suportamos,
Aprendemos com as dores; todo dia
Que é possível ser culpado e ser feliz

Mateus Medina
22/10/2013



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ao som daquela valsa


Desconheço por completo o amor
Não vi qualquer das suas faces
Fossem pueris ou nobres,
Jamais amei de verdade

Foi o desejo o meu único guia
Jamais me sufocou a fantasia
Em mim, a paixão nasceu morta

A esperança não teve morada
Fui desejo, puro, mais nada
Peço então que nada me peças
Não me venha, agora, ora essa,
Esperar qu'eu entenda o teu pranto
Como um fraco e imbecil santo
Que no fim ajoelha e reza
Em buscar do ridículo perdão

Não faço qualquer gentileza
Sou desejo, vício e luxúria
Que o último orgasmo me leve
Seja intenso, mas seja breve
Pois, de partir tenho pressa

Que venha o abismo final,
O caos, que da morte se herda
Ao som de uma valsa de Strauss
Deixo este mundo de merda

Mateus Medina
21/08/2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Uma certeza basta

 

     Sua mala jazia aberta em cima da cama. Lentamente, deslizavam para dentro pequenas peças de roupa, e enormes pedaços de história.

     Me julgando oculto pela escuridão do corredor, apenas a observava. Nada mais havia a dizer. Estava tudo dito e decidido.

     Fui denunciado pela minha ansiosa respiração. Ela inspirou profundamente, enquanto levantava o olhar e me mirava, ao mesmo tempo em que vestia o seu melhor sorriso sem graça.

     - Tem certeza que quer partir? - Perguntei, como se não perguntar, fosse falta de educação.

     - Não, não tenho - Respondeu-me, soprando todo o ar de uma só vez.

     - E vai, mesmo assim? - Retorqui, baralhado entre a forma e o conteúdo.

     - Não tenho certeza se quero partir. Mas, tenho certeza que não quero ficar.

Mateus Medina
06/03/2012

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

À puta que pariu

Num macabro acaso da vida
Cruzaram meus olhos com os teus
Os meus opacos - pura neblina
Os teus cansados - gritos de adeus

Jamais te poderia ajudar
Ainda e mesmo que quisesse
Nunca aprendi o que é amar
E tu, o amor não mereces

Fomos um do outro a ruína
Doente obsessão nos consumiu
Mergulhaste na minha neblina
Mandei-te à puta que pariu

Mateus Medina
18/01/2013


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Lista de Leitura 2013



Cada vez que eu terminar um livro, ele vem pra cá.

Esse ano vou também dar uma nota de 0 a 5, como no Skoob.

Se quiser dar uma olhada na lista de 2012, é só clicar aqui.

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Janeiro:

1) "O Fardo do Amor" 
Ian McEwan
Editora: Gradiva
Nota: 4/5

Fevereiro:

2) "A Noite do Oráculo"
Paul Auster
Editora: ASA
Nota: 4/5

Maio:

3) "A Rapariga que Roubava Livros"
Markus Zusak
Editora: Presença
Nota: 5/5

Junho:

4) "Os Filhos de Krondor - O Príncipe Herdeiro"
Raymond E. Feist
Editora: Saída de Emergência
Nota: 4/5

5) "Os Filhos de Krondor - O Corsário do Rei"
Raymond E. Feist
Editora: Saída de Emergência
Nota: 4/5

Julho:

6) "Sharp Objects"
Gillian Flynn
Editora: Kindle Edition: Phoenix
Nota: 4/5

7) "O Jardim de Cimento"
Ian McEwan
Editora: Gradiva
Nota: 3/5
  
8) "Aurora Boreal"
Åsa Larsson
Editora: Planeta
Nota: 3/5

Agosto:

9) "Leviathan"
Paul Auster
Editora: Presença
Nota: 4/5

10) "A Sombra do Vento"
Carlos Ruiz Zafón
Editora: Dom Quixote
Nota: 5/5
  
11) "O Corpo Humano"
Paolo Giordano
Editora: Bertrand
Nota: 3/5

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Falsas convicções




Não me julgue pela máscara,
Por um vício ou por um verso
Se no fim já não há nada
Me declaro e me despeço

Não me julgue pela dor,
Por prazeres ou defeitos
Não nasci para o amor,
Não trago coração no peito

Não julgue o meu cinismo
Como fuga ou amargor
Ele é simples amorfismo
Que a própria vida moldou

Não julgue o meu sorriso,
Como mágoa, encenação
Tenho tudo o que preciso
P'ra viver com a solidão

Mateus Medina
15/07/2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O meu lar


(Impression, soleil levant, Claude Monet, 1872)


Quando busco o teu rosto no mar
É que o vento que sopra, é brisa
 Vem devagar, mas sem parar
Toca o meu rosto de leve
Quedam meus olhos fechados
- É como te vejo melhor -
As ondas que quebram na beira
São inocentes, não suspeitam
Quão fundo a saudade mergulha

Sei do silêncio das pedras
Sinto-o sob os meus pés
O teu rosto flutua no azul
Qu'eu pinto p'ra te conquistar
O meu lar é o mar, a areia
Amor não é o que se semeia
Muito menos o que se colhe
Amor é aquilo que nasce
Ninguém sabe como - ou de onde

Mateus Medina
14/08/2013

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Permita-se



Mostra-me a verdade escondida,
Sei que a carregas em algum lugar
Entre o desinteresse pela vida
E o amor que nasceste para dar

Permita-me baixar tua cortina
Despir-te um dia desses qualquer
Provar em teus lábios a menina;
Em teu corpo, a força de mulher

E deixa-te dessa brincadeira;
Ser triste, esconder-se do mundo
Pois muito tens que lhe mostrar

Não deixe que passe a vida inteira
Encolhida, temendo o absurdo
Que a vida tem muito mais p'ra dar

Mateus Medina 
18/10/2012


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Gatilhos da Saudade





          Tinham acabado de voltar do enterro de um dos seus tios. Um daqueles que ela não via há mais de 10 anos.

          Enroscada no colo do pai, tinha novamente cinco anos. Ali, não tinha nada a temer ou qualquer preocupação. Ali, o tempo parava e ela podia ser criança novamente.

         - Pai, é tão confuso... quando recebi a notícia, foi como se não sentisse nada. Como se o tio Arnaldo fosse um estanho...

         - Você já não o via há quanto tempo? Doze anos? É normal o distanciamento, querida.

         - Não sentir vontade de chorar? Em nenhum momento? É normal? Ele era o meu tio preferido.

         - Há alguma lei que te obrigue a chorar? Nem sempre um rio de lágrimas espelha a face do amor.

         Enquanto o pai ainda terminava a frase, ela chorou.

         Finalmente. Compulsivamente.

         Ele esperou até os soluços encontrarem o caminho do silêncio, e então perguntou:

         - Por que agora?

         - Você afastou o cabelo da frente dos meus olhos, examente do jeito que ele fazia.


Mateus Medina
01/08/2013


terça-feira, 30 de julho de 2013

Cartas escritas para não serem lidas

("Brieflezend meisje bij het venster" (Garota lendo uma carta à janela),
 de Johannes Vermeer, 1657-1659)

Tudo o que jamais te contaria
Repousa agora em cima da mesa
Entrelaçados; destino e escolha
Resolvem o caminho a seguir
Através do caminho seguido

É como a vida
É como a morte

Fujo de uma e outra
Quando desisto e quando persisto
Não há qualquer explicação;
O meu sim e o meu não
São faces da mesma moeda

É como o coice
É como a queda

Está aí, em cima da mesa
Leia, se quiser saber
Queime, se tiver juízo
Mas, não me pergunte nada
Esse rio já foi desviado
E não faço ideia para onde 

Mateus Medina
27/07/2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Si bemol é sempre triste



Num dia desses que ficou pra trás
Minha alegria jaz, vestida de amarelo
Acorentada num qualquer sujo cais
É o espelho do meu próprio flagelo

E por mais que a tente encontrar
O mundo é outro, é outro tempo
Há muito a deixei de escutar
Hoje toco canções de lamento

E é nas cordas do meu violão
Que persisto na busca impossível
De encontra-la num Si bemol

Dedilho, corda sim, corda não
Tentando recriar o inaudível
À beira-mar, ao nascer do sol

22/07/2013

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Desmentido

Palavra às vezes me desmente
Pula boca afora sorrindo,
Rodopia contente pelo chão
Chama para si toda atenção,
À volta, é ignorado o evidente;
A alma sente diferente

Sentimento faz de mim refém,
Trepa pelo estômago acima,
Costura os vácuos que convém
Me cala, se vai e deixa a sina;
Na boca o gosto de ninguém,
A mente dispersa desatina

Palavra e sentimento em batalha
Destroem minha percepção
Vislumbres de verdade se entalham
 Na pedra basilar da razão
No fim resta apenas o retalho
Da verdade esculpida em ilusão

Mateus Medina
12/07/2013

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O que vês que eu não vejo?

Tu achas sempre que podemos
Mudar o mundo com canções
Limpando o velho pó da casa,
Mudando os móveis de lugar
Tirarando os peixes do aquário,
Liberdade! Te ouço a gritar
Como se houvesse um caminho
Onde podemos sorrir a dançar

Tu insistes em dizer que o amor
Há de sobreviver ao holocausto
Que as flores não morreram
- Nossos olhos é que não sabem ver -
Que o vendaval não faz qualquer mal
- As casas são mal contruídas -
Que o sol está lá fora a brilhar,
Mas só vemos a escuridão da vida

Tu acreditas no poder do perdão
Na doçura das palavras bem ditas
Bendita seja a tua inocência
E se tiveres, amor, paciência
Não desistas de tentar me ensinar
Que o mundo vai além do que parece
Que a alma da gente padece
Quando desiste e deixa de acreditar

Mateus Medina
08/07/2013

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um e outro

Há em mim o que duvida das flores,
Não sente sequer o seu perfume
Duvida da vida, dos amores
Encolhe-se na escuridão - sem lume

Habita em mim o cínico descrente
Que duvida da próxima alvorada
Do leme da própria vida ausente
Tem como única certeza: O nada

Há em mim o que perdeu a esperança,
Não enxerga estradas pr'o futuro
Desdenha dos sorrisos das crianças
Nada enxerga do outro lado do muro

Junto desse há o tolo incorrigível
Que nega o que foi dito; com fulgor
E se tudo se torna incompreensível
Canta o sentido da vida: O amor

Mateus Medina
01/07/2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que gostaria

Passe por mim feito brisa,
Refrescando, mas sem esfriar
Seja paixão! Circule, deslize
Me ame, mas não me invada
Sejas sempre - e só - o que és
Não queiras ser tudo; ou nada

Quand'eu por ti passar, serei
O sustentáculo da melodia,
O dançarino desajeitado,
A voz vibrante da poesia
Isso é tudo o que sei ser,
E tudo o que (ser) gostaria

Mateus Medina
12/06/2013







terça-feira, 4 de junho de 2013

Destroços de ilusão

Corro, desesperado
Exasperando em exagero
A vida inteira fui enganado
Engarrafaram meu desespero

Se não morro, não sou culpado
Indignado, bem que tentei
Declara a lei: não sou errado,
Se amado não fui - nem serei

Ainda ontem, arrebatado
Desarrumado, o tempo gira
O arrebite arrebitado
Do arrebate é só mentira

Incompreendido, inconsolável
Abomino a nefasta ilusão
De um céu deveras inviolável
Inefável, germinado de perdão

Mateus Medina
03/06/2013







quinta-feira, 30 de maio de 2013

Não me deixe partir



Não deixe que eu parta, amor
Custa menos descer as escadas
Que subi-las cheio de rancor
Pode ser que eu deslize pra fora,
Pode ser que nunca mais me vejas
Deixe eu partir, e terás certeza

Bem sei o sabor dos teus beijos, 
O calor que me dás na cama
Mas, do que vale voar
Se à chegada ninguém te espera?
Do que vale o calor do sol
Se na sombra da árvore é frio?

Pode ser qu'eu resolva ir,
Pode ser qu'eu desista no meio
O caminho que de ti me afasta
É o mesmo que leva a mim mesmo
Não gosto daquilo que vejo
Então volto e me deixo ficar

Não me deixe partir, por favor
Tenho medo de me encarar

Mateus Medina
30/05/2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A poesia mata



Hoje sirvo a poesia crua,
Escorrendo sangue pela mesa
Pronta a entupir gargantas
Cínica, dura e pegajosa
Sufoquem, malditos hipócritas
Hoje a poesia sabe mal

Hoje sirvo (a) dura a poesia
 Se espalha pelo chão, balbucia
Geme, chora e se debate,
Mas grita a plenos pulmões
Aquilo que mais ninguém grita,
Aquilo que ninguém acredita

 Hoje a poesia se ergue
Enquanto pisa as vossas faces
Nega qualquer fragilidade
Sem ritmo, amor ou melodia
Tudo o que arde é poesia,
E toda poesia hoje arde

Hoje a poesia é violência
Resiliência, dureza e colisão
Bate, sem dó nem piedade
Cerca, não vos deixa escapar
Gargalha das fracas bravatas
Hoje, a poesia mata

Mateus Medina
24/05/2012


terça-feira, 21 de maio de 2013

Implacável



Não tenho lar, nem para onde ir
Minha fuga é sempre circular
Sobe a poeira, cega o porvir
Me convenço que tudo passará

Sob a cínica e luminosa lua
Me visto de herói, invento elos
Laços que sustenham sanidade
Amontoo pedras, finjo castelos 

Se tem a vida uma qualquer razão
Perdão, com certeza, não será
Implacável, nunca irá me absolver

Dela o que me cabe é a solidão
Já não pode a morte me assustar
O que me mata, de fato, é viver 

Mateus Medina
08/04/2013



terça-feira, 14 de maio de 2013

(In)Convenientes verdades



Não, não carrego só mentiras,
Tenho verdades - incovenientes
Das que ardem nos olhos, fustigam
Quer um punhado? Posso te dar
Mas não me venha amaldiçoar,
Caçoar do meu intelecto
Como se a vida fosse um dia azul,
E as dores se escafedessem ao sol

A verdade tantas vezes machuca
Rasga a nossa pele, incomoda
Bruta, é a verdade que educa
Meia, é a verdade que consola

Carrego as verdades com cuidado
É perigoso transporta-las por aí
Tantas vezes levam à morte
Do amor, da ilusão, da crença
A verdade é cura e veneno,
Uma bomba pronta a explodir
Cada um que escolha se compensa
Dos efeitos da verdade prescindir

Mateus Medina
06/05/2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

Caminhos



Não tenho planos ou direção
Vou traçando o meu traçado
Tentando em vão entrelaçar
O futuro com o passado

E nessa colcha de retalhos
Retalhado entre entreveros
Tantos caminhos mal talhados
Voltam à estaca zero

E quando a jovem manhã canta,
Desencanta o seu brilho
Descortina a vida em canto
Enquanto escolho o meu trilho 

Há quem me diga perdido
Há quem me diga achado;
Entre a partida e a chegada
Importa o caminho trilhado

Mateus Medina
07/05/2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Gargalha!

Gargalha sem pressa, deixa estar!
Do palco o que interessa?
Dura a vida o tempo da peça
Brinca, improvisa, deixa estar

Gargalha sem medo, ora essa!
Não meça o teu gargalhar
Dos monstros na tua floresta
Qual deles conhece o amar?

Gargalha, meu bem, acredita
No sol que te beija a face
Enlaça o farol que indica
Onde o baralho se parte

Gargalha, amor meu, e aceita
Cicatrizes, dores e tombos
Escombros da vida imperfeita;
Divida-os com os meus ombros

Mateus Medina
25/03/2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Verso

O verso me arrasta, me desgasta
Sobrepõe-se à minha vontade
Sobrevive a qualquer escombro
Grita, mesmo quando calo,
Anda, mesmo quando paro
O verso tem vida própria

Me obriga a vomita-lo, escreve-lo
Ainda que tenha as mãos feridas
Cansada, a boca pronuncia
A chegada do verso ditador
Dita a dor, a alegria, pouco importa
O verso não respeita nada

E mesmo quando nada digo
O verso se exibe por prazer
Pelo amor que nutre por si próprio
Ele se veste, se mostra e sorri
Cínico, excêntrico, desonesto
O verso nasce do orgulho

Mateus Medina
29/04/2013




terça-feira, 23 de abril de 2013

Hoje não

 Há muito p'ra dizer, mas hoje não
O dia amanheu preguiçoso
Na rede, entre bananeiras
Hoje, me apetece o sossego
Fingir que não passa nada,
Qu'eu não passo em passo errado
Fingir que sou apenas um coitado
Vitma das circunstâncias

Há muito p'ra fazer, mas hoje não
A brisa que me acarinha a face
Me traz a falsa calma (meu desastre)
Sopra frescura para o cárcere
Hoje me limito a acreditar
Que se eu cantar, o amanhã vem diferente

Há estrada a percorrer, mas hoje não
A lua lá no céu faz sua magia
Como boa atriz, me ludibria
Rouba toda minha atenção
Hoje vou fingir que a lua cheia
Será para sempre brilhante
Tiro um livro qualquer da estante
E fica a viagem p'ra amanhã

Mateus Medina
22/04/2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Se quiseres voltar



Rabisco o teu nome no chão
Que é pr'eu não esquecer
Por que partiste tão cedo?
Não é fácil compreender

Vou desenhando teu rosto
Pelas paredes da sala
Pr'a não esquecer teu sorriso
Livrar-me da dor que não cala

A noite faz de mim presa
Da falta que fazes no lar,
Do breu que me vem abraçar

Então, deixo as luzes acesas
Pois se resolveres voltar
Não te quero a tropeçar

Mateus Medina
15/04/2013





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Canção perdida



Te escrevi uma canção e guardei
Nunca cheguei a cantar
Dói, dedilhar o violão,
Acordar impossíveis desejos
- Moribundos na beira estrada -
Não é medo, nem nada
É só a vida que cobra o preço
Pela vida que vivemos

É bela - e triste - a canção que escrevi
Tem o teu nome e os teus olhos,
Tua boca entreaberta, a espera
Do último beijo que não demos
Tem flores, pólen e primavera
Tem vinho, sorrisos e desejo
É pena que a pobre seja muda

Assovio baixinho a melodia
Distraído, a caminho da vida
Que escolhi ao deixar de escolher;
Viver sem ti é uma canção perdida

Mateus Medina
08/04/2012

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Além do colorido

Portrait of Emy, 1919 (Karl Schmidt-Rottluff)

Parte de mim se espanta,
Enquanto a outra entristece
Escapa um pequeno sorriso?
Não tenho muita certeza

Há quem veja a esperança,
Eu vejo fogo, somente fogo!
E toda a confusão que se segue

Ouço os murmúrios assustados,
Os lamentos dos incapazes
Não é seguro andar pelas ruas
Há olhos postos em cima de nós

Há quem veja o nascer do sol
Eu vejo a morte da lua
Indefesa, pálida, nua

Mateus Medina
05/04/2013




terça-feira, 2 de abril de 2013

Soneto para um senhor desavisado



Sente o fétido ar circundante?
Parado, não chama atenção
Veja, o pseudo caminhante
Anda, sem tirar os pés do chão

Esta nuvem por cima de nós
Não vai embora, não senhor
Cada vez mais negra e feroz
Desaguará, não tarda, o rancor

Não se iluda, senhor, com abrigos
Nenhum nos poderá proteger
Da nossa própria ignorância

Que torna os iguais em inimigos
Exaurindo a essência do ser
Imbecis, ébrios de intolerância

Mateus Medina
02/04/2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Com a noite



Diga logo, vá! Tenho pressa!
Imagina se amanhã não dá?
Entalada no tempo, na fresta
Já pensou, não conseguir falar?

Diga logo, vá! Tenho que ir!
O mundo espera que eu corra
E socorra o que ainda há de vir
Diga, antes que a palavra morra!

Depressa, diga de uma vez!
Sei que o tempo parece parado
Montado no futuro, no talvez
Na verdade ele voa apressado

Diga, ou não vá se arrepender
Da palavra calada ser açoite
Diga, antes do dia amanhecer
Não tarda, parto com a noite

Mateus Medina
25/03/2013









terça-feira, 26 de março de 2013

A morte da cidade

"Nollendorfplatz",  de Ernst Ludwig Kirchner


São tantos os caminhos da cidade
Às vezes quem passa não nota
Pela pressa, pelo desinteresse,
Ou porque a cidade se maloca

São duros os caminhos da cidade
Os pífios fazem muita questão
De nos ludibriar a sanidade
Distorcem a real percepção

Meretriz, paridora de caminhos
Segue escondendo as mazelas
Na agitação dos becos frios
Enquanto a morte prolifera

 O ódio vai crescendo nos esgotos,
Lentamente a cidade transborda
Em breve nos afogaremos - todos!
Até que a cidade esteja morta

Mateus Medina
26/03/2013





sexta-feira, 22 de março de 2013

Ciclo prematuro

 (Capa do álbum "Felicidade interna bruta", da banda Eskimo)

A menina que remava
Chamava minha atenção
Rema, rema, pequenina, 
Pássaros, p'ra onde vão?

As costas quase retas, 
Os braços quase fortes
Rema, rema, pequenina
Qu'esse rio não é de sorte

Lá vai ela sorridente
Escapando com seus sonhos
Rema, rema, pequenina
Que o luar hoje é medonho

Cercada de água escura
Ela segue e não duvida
Rema, rema, pequenina
Leva os segredos da vida

Do outro lado a esperança
A espera qu'ela desça
Rema, rema, pequenina
Antes que o dia anoiteça

A distância de um passo
A margem já se mostra
Rema, rema, pequenina
Vem a morte ali na encosta

Um pezinho já na margem
Outro ainda na jangada
Rema, rema, pequenina
Já não podes fazer nada

Os sonhos se afogaram,
Perdidos para sempre
Rema, rema, pequenina
De volta para o ventre

Mateus Medina
20/03/2012

quarta-feira, 20 de março de 2013

Alguém



Há nesse mundo alguém
Em quem confias sem hesitar?
Dás as mãos de olhos fechados,
E apenas te deixas levar?

Alguém com quem gargalhas - por nada
Por horas, até que o sono vem
Que se enrosca em tuas pernas - tens?
Batalha ao teu lado esse alguém?

Há nesse mundo alguém
Com quem irias a qualquer lugar?
Sem saber sequer p'ra onde
Sem ao menos perguntar?

Alguém que vai na mesma direção
Que guia e se deixa guiar
Que cede e nada em troca pede
Tens esse alguém para amar?

Mateus Medina
15/02/2012

terça-feira, 12 de março de 2013

Depende



Às vezes falo, às vezes me calo
Depende muito da chuva lá fora
Do halo que circunda minh'alma,
Depende da calma... ou falta dela

Às vezes corro, às vezes paro
Depende da pressa, do que interessa
Da preguiça que às vezes assoma
E me paraliza quando me toma

Às vezes rio, às vezes choro
Depende de coisas que desconheço
Tem um preço; a lágrima, o riso
Rio e choro, tudo junto, se preciso

Às vezes fico, às vezes parto
Depende da música no botequim
Se fico estou sempre partindo,
Se parto, fica um pouco de mim

Mateus Medina
11/02/2013



quinta-feira, 7 de março de 2013

Essa coisa



Afaste-se um pouco, é mais seguro
Minhas correntezas partem remos
São caudalosas as correntes
Que espancam minha alma
Nada cessa, nada acalma
Afasta-te, pelo bem do teu futuro

Perscrutar meu lar é um perigo
Há caminhos sem volta, vícios fétidos
As portas fecham-se, tu sufocas
Fica tudo espalhado no sofá
O rastro da alegria que não há
É em si próprio a ilusão de abrigo

Pode vir, mas vá antes que amanheça
É que tenho a alma encharcada
De sombras, veneno e mais nada
Os armários abarrotam de dor
E é impossível arranjar espaço
Para essa coisa que tu chamas amor

Mateus Medina
04/03/2013

terça-feira, 5 de março de 2013

'inda lembro




Amanhecia sem pressa, 'inda me lembro
O teu perfume preenchia o ar exausto
Numa manhã preguiçosa de dezembro
Éramos um do outro o antepasto

Ficou p'ra trás o temor da madrugada
O estranhar dos corpos - a novidade
Respiravas baixinho, aconchegada
No meu corpo qu'era todo vontade

Percorremos novamente os caminhos
Dessa vez com outra confiança
Fomos juntos, não cada um sozinho
Fomos prazer, liberdade e esperança

'inda lembro do sorriso no teu rosto
Grudaram em meus lábios as lembraças
Das curvas do teu corpo, do teu gosto
'inda lembro os passos da nossa dança

Mateus Medina
04/03/2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A espera de uma coisa qualquer



Sei como é o frio na barriga
Quando chega a hora de partir
Treme a mão, palpita o coração
A sala encurta, tudo se aperta
É um segundo de desespero
Que se prolonga e se estica
Enquanto o coração se nega
A caminhar, em vez de correr
Vai passar, eu sei e tu também
Mas até lá a dor se espalha,
O medo ri da nossa cara
Somos palhaços fora do circo
Soltam-se as mãos, se desenlaçam
O compasso de espera não termina
Ali em pé, a espera que aconteça
Um milagre, uma coisa qualquer

Mateus Medina
27/02/2013


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Gente não liga



Tá vendo aquele sangue, moço?
Fui eu quem derramou na estrada
Ninguém olhou p'ra mim nem nada
A vida é cheia de desgosto

Tá vendo aquela marca, moço?
Foi onde eu caí gemendo
Ninguém liga prum hômi sofrendo
A vida é cheia de desgosto

Ninguém presta atenção
Ninguém estende a mão
Só há espelho em frente
Gente não liga p'ra gente

Tá vendo aquela sombra, moço?
Ela me perseguiu mais cedo
Os outros ria do meu medo
A vida é cheia de desgosto

Tá vendo aquela pedra moço?
Filha da puta de um tropeço!
E agora já paguei o preço
A vida é cheia de desgosto

Ninguém presta atenção
Ninguém estende a mão
Só há espelho em frente
Gente não liga p'ra gente

Mateus Medina
25/02/2012

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Contra o vento



É impiedoso o vento que fustiga
O deserto que um dia foi mar
Voa areia nos olhos, castiga
É difícil o caminho encontrar

Disperso nas fissuras do tempo
Sou levado ao sabor do acaso
Meu Deus, é tão forte este vento!
Já desponta no horizonte o ocaso

Parecem tão iguais os caminhos
É tudo terra, areia, vento e dor
É mais difícil caminhar sozinho
Sem a luz dos teus olhos; sem amor

Mateus Medina
22/02/2012

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entre a sopa e a morte

"Dos viejos comiendo sopa" (Francisco Goya)
Uma das 14 obras que compõem as "Pinturas Negras", de Goya

Bebe a sopa e cala-te, ó velho!
Tua hora se aproxima a calvalgar
Não serás levado com esmero
Quando a luz dos teus olhos borrar

Tens na pele a culpa entranhada
De maneira que já não se solta
Bebe a sopa, cala-te e mais nada!
Não voltas a passar daquela porta

Será o último, este cínico sorriso
Que inocentes almas molestou
Bebe a sopa, ó estrume enfermiço!
Que a morte vem aí; já apeou

 Mateus Medina
18/02/2012

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Segredos Imersos



Algures na balbúrdia dos meus versos
Intocável, nosso amor remanesce
Outra cara, outro tom - controverso
Mas, 'inda é amor que não se esquece

Por aí, deambulando em confusão
Te ouço vez em quando a cantar
Num tom que é pura persuasão
Recordando os acordes do amar

É indizível teu invisível toque
Baralha os segredos lá no fundo
E algum sempre há de emergir

Não venha a loucura a golope
Fazer de mim um reles vagabundo
Pela vida vagando - atrás de ti

Mateus Medina
11/02/2013


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Vendo-a passar



Passava o dia na janela, vendo-a passar. Não que ela fosse extremamente bela, mas também não era feia. Não parecia feliz nem miserável. Tinha uma expressão neutra, de quem boia numa piscina. Sem ondas.

Andava como quem está parada. Nunca a via sorrir nem chorar. Quando cruzava sua janela, olhava-o sempre nos olhos sem nada dizer. Nem ela, nem ele.

Um dia, sem quê nem pra quê, ela especou-se em frente à janela. Pela primeira vez ele ouviu a sua voz. Pausada, cansada e descontente. Falhavam sílibas pelo meio, num estático soluço seco. Sem lágrimas. O tom absurdamente monocórdio, fazia crer que já o havia explicado o óbvio por mil vezes, ainda assim, sem ser compreendida:

- Quando é que me tomas em tuas mãos? Quando é que me assumes como tua? Quando é que me dás direção?

Pego de surpresa, atônito, ele fez a única pergunta possível:

- Quem é você?

- A sua vida... idiota!

Mateus Medina
13/02/2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A validade do poema



Pode um poema perder a validade,
Ou vale a idade que se embaraça,
No embaraço de se mostrar pequena:
A razão, a verdade, o poema?

Tem validade a vaidade do poema,
Ou só aumenta com a idade a avançar,
A versar sobre a importância suprema
Do verso, do inverso, do versar?

Será a idade do poema a validade,
Ou em verdade será como o vinho,
Pelo caminho aumenta a autoridade:
Admirado, nunca aberto, sozinho?

Mateus Medina
12/02/2012

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O que há de vir?

 
O Balanço, de Jean Honoré Fragonard


Para lá e para cá - segue o balanço
Que me lança no incógnito infino,
É exultante e vivo o meu grito
Dança pelo ar sem compromisso,
Desmistifica o peso do pesar,
As consequência que virão no advir

O que há de vir?

Do que serve o futuro ponderar
Se num segundo tudo nos escapa?
Mais vale no balanço balançar
Aproveitar a brisa que nos toca,
O Amanhã ainda não é - e não será
Se não saírmos hoje mesmo da toca

Mateus Medina
07/02/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Dependência

Não sirva de desculpa a escuridão
Se falta a luz, que sobre o tato
Que não se troque o abstrato
Por um qualquer concreto,
Fincado conceito, conceituado
Não há luz, não há certezas
E quem precisa delas?
É pelo tato que se tateia
A teia que em silêncio se forma
Quanto mais a luz escasseia
Mais há teia, mais o fogo ateia
Serpenteia a breve chama,
Aquece por tão pouco
Padece aquele que clama
Pela luz, pela chama; está louco

Mateus Medina
07/02/2013


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Verdade aprisionada



Quando o sol beijou-te o rosto
O mundo resolveu dançar
Incrédulo, bêbado de espanto
Pude apenas observar

Como podes ser tão bela?
Que direito tens tu de sorrir?
Uma vez disparada a flecha
Seu curso ela há de seguir

As águas do mar aos teus pés,
Ris da engessada gravidade
Deslizas como se nada fosse
Teu corpo é a prisão da verdade

Trêmulas, minhas mãos percorrem
Os recantos da luxúria que cedes
Na pressa, sorvo tudo de um gole
No fim... continuo com sede

Mateus Medina
05/02/2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rótulos

Roubo sorrisos, temo a indiferença
Gosto de gente, mas não é sempre
Sou capaz de ditar uma sentença
Paraliso quando me vejo ao leme

Gosto de cama, de olhares juvenis
Sem reservas me entrego ao prazer
Desconfio do que se não diz
Quando em verdade devia se dizer

Me encanta o olhar mudo, a leveza
O silêncio que vem no tempo certo
Na mesma mala, alegria e tristeza,
No mesmo fado a praia e o deserto

Sou egoísta, tudo quero só pra mim
Ainda assim não me ouses rotular
Pois se um dia faltar a vida a ti
Dou-te a minha sem pestanejar

Mateus Medina
29/01/2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ataraxia

Toco o céu, me arrasto no chão
E só um segundo separa
O dia quente da noite fria

O destino na palma da mão
Escorrega, foge, não para
Dou comigo a fazer poesia

Nos galhos, as folhas brincam
Balbuciam tal qual segredo
A chegada de um novo dia

Ao longe os trovões roncam
Fazem do vento brinquedo
Transportam minha ataraxia

Ao fim de um ciclo me escondo
Lambendo as feridas abertas
Antes que a pele se desfaça

Batem com enorme estrondo
Tambores de melodia incerta
A vida, a morte, tudo passa...

Mateus Medina
25/01/2013


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Ampulheta



César levava o mundo embrulhado na mochila.

A passos lentos aproximou-se da cadeira do pai. Viu seus ralos cabelos brancos espalhados aqui e ali, com uma enorme cratera no meio. Passou uma mão pela própria cabeça, pensando que jamais teria um filho para rir da sua calvice, como ria da do pai. Na outra, apertava a ampulheta em forma de papel, escorrendo areia pela sentença que se podia ler no fim: "Positivo"

Como sempre, antes de seguir para escola, afagou a meia dúzia de fios brancos e rebeldes na cabeça do seu velho, para em seguida dar um tapa de leve, bem no meio da cratera, ao qual seguia-se um beijo. Roubou da terra todo ar que conseguiu, vestiu seu melhor sorriso e atravessou a sala, parando em frente a porta. Virou-se, encontrando o pai como sempre: debruçado sobre o jornal, olhos apertados, pescando as letras que lhe teimavam em fugir.

Deixou que a ampulheta amarrotada deslizasse para o chão, enquanto um pingo salgado lhe invadia a boca e disse:

─ Pai, tô indo embora.

─ O quê?

─ Tô indo embora!

─ Tranca o portão quando sair.

Mateus Medina
03/01/2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pelo fogo



Quando chamaram-me covarde
Não tinham pequena ideia
De como dói - quando arde
O fogo invade, desnorteia

Julgado e condenado: um borra-botas
Esquecidas as vitórias do passado
Nem a morte concederam-me; idiotas
Tolo erro que não fora perdoado

Prometi que voltaria, todos riram
A humilhação é o bastante - disseram
Arrastado em estrume, me baniram
Gargalhadas ainda hoje reverberam

Fartaram-se com vinhos e canções
Deixei-os esquecer que existi
Segui o meu caminho de orações
Recordando do dia em que parti

Ouviram-me os deuses do inferno!
Dentro do fogo que outrora temi,
Danço agora a caminho do eterno
Destino que um dia escolhi

Esgueirei-me pela noite num rasgo,
Pelas sombras do dia naveguei
Vejo agora a turba dos carrascos
Todos vibram e cantam pelo rei

Observo com deleite o brotar
Do calor que para vingar veio
Exala o cheiro de carne a queimar
Enquanto a gargalhar me banqueteio

Mateus Medina
27/08/2012