terça-feira, 22 de outubro de 2013

É possível



Pela minha hamartia, fui punido
Prisioneiro de uma sorte cruel
Não da morte, o temor do corrossel
Me manteve acovardado, escondido

E agora que caminho - finalmente
Confundem-se as pernas, exauridas
Tantos anos na gaiúta ali em frente
Te escondias - como eu - da própria vida

No meio do caminho nos cruzamos
Pouco importa se por sorte ou ironia,
A vida não nos deixou, por um triz

Hoje o peso um do outro, suportamos,
Aprendemos com as dores; todo dia
Que é possível ser culpado e ser feliz

Mateus Medina
22/10/2013



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ao som daquela valsa


Desconheço por completo o amor
Não vi qualquer das suas faces
Fossem pueris ou nobres,
Jamais amei de verdade

Foi o desejo o meu único guia
Jamais me sufocou a fantasia
Em mim, a paixão nasceu morta

A esperança não teve morada
Fui desejo, puro, mais nada
Peço então que nada me peças
Não me venha, agora, ora essa,
Esperar qu'eu entenda o teu pranto
Como um fraco e imbecil santo
Que no fim ajoelha e reza
Em buscar do ridículo perdão

Não faço qualquer gentileza
Sou desejo, vício e luxúria
Que o último orgasmo me leve
Seja intenso, mas seja breve
Pois, de partir tenho pressa

Que venha o abismo final,
O caos, que da morte se herda
Ao som de uma valsa de Strauss
Deixo este mundo de merda

Mateus Medina
21/08/2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Uma certeza basta

 

     Sua mala jazia aberta em cima da cama. Lentamente, deslizavam para dentro pequenas peças de roupa, e enormes pedaços de história.

     Me julgando oculto pela escuridão do corredor, apenas a observava. Nada mais havia a dizer. Estava tudo dito e decidido.

     Fui denunciado pela minha ansiosa respiração. Ela inspirou profundamente, enquanto levantava o olhar e me mirava, ao mesmo tempo em que vestia o seu melhor sorriso sem graça.

     - Tem certeza que quer partir? - Perguntei, como se não perguntar, fosse falta de educação.

     - Não, não tenho - Respondeu-me, soprando todo o ar de uma só vez.

     - E vai, mesmo assim? - Retorqui, baralhado entre a forma e o conteúdo.

     - Não tenho certeza se quero partir. Mas, tenho certeza que não quero ficar.

Mateus Medina
06/03/2012

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

À puta que pariu

Num macabro acaso da vida
Cruzaram meus olhos com os teus
Os meus opacos - pura neblina
Os teus cansados - gritos de adeus

Jamais te poderia ajudar
Ainda e mesmo que quisesse
Nunca aprendi o que é amar
E tu, o amor não mereces

Fomos um do outro a ruína
Doente obsessão nos consumiu
Mergulhaste na minha neblina
Mandei-te à puta que pariu

Mateus Medina
18/01/2013


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Lista de Leitura 2013



Cada vez que eu terminar um livro, ele vem pra cá.

Esse ano vou também dar uma nota de 0 a 5, como no Skoob.

Se quiser dar uma olhada na lista de 2012, é só clicar aqui.

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Janeiro:

1) "O Fardo do Amor" 
Ian McEwan
Editora: Gradiva
Nota: 4/5

Fevereiro:

2) "A Noite do Oráculo"
Paul Auster
Editora: ASA
Nota: 4/5

Maio:

3) "A Rapariga que Roubava Livros"
Markus Zusak
Editora: Presença
Nota: 5/5

Junho:

4) "Os Filhos de Krondor - O Príncipe Herdeiro"
Raymond E. Feist
Editora: Saída de Emergência
Nota: 4/5

5) "Os Filhos de Krondor - O Corsário do Rei"
Raymond E. Feist
Editora: Saída de Emergência
Nota: 4/5

Julho:

6) "Sharp Objects"
Gillian Flynn
Editora: Kindle Edition: Phoenix
Nota: 4/5

7) "O Jardim de Cimento"
Ian McEwan
Editora: Gradiva
Nota: 3/5
  
8) "Aurora Boreal"
Åsa Larsson
Editora: Planeta
Nota: 3/5

Agosto:

9) "Leviathan"
Paul Auster
Editora: Presença
Nota: 4/5

10) "A Sombra do Vento"
Carlos Ruiz Zafón
Editora: Dom Quixote
Nota: 5/5
  
11) "O Corpo Humano"
Paolo Giordano
Editora: Bertrand
Nota: 3/5

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Falsas convicções




Não me julgue pela máscara,
Por um vício ou por um verso
Se no fim já não há nada
Me declaro e me despeço

Não me julgue pela dor,
Por prazeres ou defeitos
Não nasci para o amor,
Não trago coração no peito

Não julgue o meu cinismo
Como fuga ou amargor
Ele é simples amorfismo
Que a própria vida moldou

Não julgue o meu sorriso,
Como mágoa, encenação
Tenho tudo o que preciso
P'ra viver com a solidão

Mateus Medina
15/07/2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O meu lar


(Impression, soleil levant, Claude Monet, 1872)


Quando busco o teu rosto no mar
É que o vento que sopra, é brisa
 Vem devagar, mas sem parar
Toca o meu rosto de leve
Quedam meus olhos fechados
- É como te vejo melhor -
As ondas que quebram na beira
São inocentes, não suspeitam
Quão fundo a saudade mergulha

Sei do silêncio das pedras
Sinto-o sob os meus pés
O teu rosto flutua no azul
Qu'eu pinto p'ra te conquistar
O meu lar é o mar, a areia
Amor não é o que se semeia
Muito menos o que se colhe
Amor é aquilo que nasce
Ninguém sabe como - ou de onde

Mateus Medina
14/08/2013

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Permita-se



Mostra-me a verdade escondida,
Sei que a carregas em algum lugar
Entre o desinteresse pela vida
E o amor que nasceste para dar

Permita-me baixar tua cortina
Despir-te um dia desses qualquer
Provar em teus lábios a menina;
Em teu corpo, a força de mulher

E deixa-te dessa brincadeira;
Ser triste, esconder-se do mundo
Pois muito tens que lhe mostrar

Não deixe que passe a vida inteira
Encolhida, temendo o absurdo
Que a vida tem muito mais p'ra dar

Mateus Medina 
18/10/2012


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Gatilhos da Saudade





          Tinham acabado de voltar do enterro de um dos seus tios. Um daqueles que ela não via há mais de 10 anos.

          Enroscada no colo do pai, tinha novamente cinco anos. Ali, não tinha nada a temer ou qualquer preocupação. Ali, o tempo parava e ela podia ser criança novamente.

         - Pai, é tão confuso... quando recebi a notícia, foi como se não sentisse nada. Como se o tio Arnaldo fosse um estanho...

         - Você já não o via há quanto tempo? Doze anos? É normal o distanciamento, querida.

         - Não sentir vontade de chorar? Em nenhum momento? É normal? Ele era o meu tio preferido.

         - Há alguma lei que te obrigue a chorar? Nem sempre um rio de lágrimas espelha a face do amor.

         Enquanto o pai ainda terminava a frase, ela chorou.

         Finalmente. Compulsivamente.

         Ele esperou até os soluços encontrarem o caminho do silêncio, e então perguntou:

         - Por que agora?

         - Você afastou o cabelo da frente dos meus olhos, examente do jeito que ele fazia.


Mateus Medina
01/08/2013


terça-feira, 30 de julho de 2013

Cartas escritas para não serem lidas

("Brieflezend meisje bij het venster" (Garota lendo uma carta à janela),
 de Johannes Vermeer, 1657-1659)

Tudo o que jamais te contaria
Repousa agora em cima da mesa
Entrelaçados; destino e escolha
Resolvem o caminho a seguir
Através do caminho seguido

É como a vida
É como a morte

Fujo de uma e outra
Quando desisto e quando persisto
Não há qualquer explicação;
O meu sim e o meu não
São faces da mesma moeda

É como o coice
É como a queda

Está aí, em cima da mesa
Leia, se quiser saber
Queime, se tiver juízo
Mas, não me pergunte nada
Esse rio já foi desviado
E não faço ideia para onde 

Mateus Medina
27/07/2013