quinta-feira, 30 de maio de 2013

Não me deixe partir



Não deixe que eu parta, amor
Custa menos descer as escadas
Que subi-las cheio de rancor
Pode ser que eu deslize pra fora,
Pode ser que nunca mais me vejas
Deixe eu partir, e terás certeza

Bem sei o sabor dos teus beijos, 
O calor que me dás na cama
Mas, do que vale voar
Se à chegada ninguém te espera?
Do que vale o calor do sol
Se na sombra da árvore é frio?

Pode ser qu'eu resolva ir,
Pode ser qu'eu desista no meio
O caminho que de ti me afasta
É o mesmo que leva a mim mesmo
Não gosto daquilo que vejo
Então volto e me deixo ficar

Não me deixe partir, por favor
Tenho medo de me encarar

Mateus Medina
30/05/2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A poesia mata



Hoje sirvo a poesia crua,
Escorrendo sangue pela mesa
Pronta a entupir gargantas
Cínica, dura e pegajosa
Sufoquem, malditos hipócritas
Hoje a poesia sabe mal

Hoje sirvo (a) dura a poesia
 Se espalha pelo chão, balbucia
Geme, chora e se debate,
Mas grita a plenos pulmões
Aquilo que mais ninguém grita,
Aquilo que ninguém acredita

 Hoje a poesia se ergue
Enquanto pisa as vossas faces
Nega qualquer fragilidade
Sem ritmo, amor ou melodia
Tudo o que arde é poesia,
E toda poesia hoje arde

Hoje a poesia é violência
Resiliência, dureza e colisão
Bate, sem dó nem piedade
Cerca, não vos deixa escapar
Gargalha das fracas bravatas
Hoje, a poesia mata

Mateus Medina
24/05/2012


terça-feira, 21 de maio de 2013

Implacável



Não tenho lar, nem para onde ir
Minha fuga é sempre circular
Sobe a poeira, cega o porvir
Me convenço que tudo passará

Sob a cínica e luminosa lua
Me visto de herói, invento elos
Laços que sustenham sanidade
Amontoo pedras, finjo castelos 

Se tem a vida uma qualquer razão
Perdão, com certeza, não será
Implacável, nunca irá me absolver

Dela o que me cabe é a solidão
Já não pode a morte me assustar
O que me mata, de fato, é viver 

Mateus Medina
08/04/2013



terça-feira, 14 de maio de 2013

(In)Convenientes verdades



Não, não carrego só mentiras,
Tenho verdades - incovenientes
Das que ardem nos olhos, fustigam
Quer um punhado? Posso te dar
Mas não me venha amaldiçoar,
Caçoar do meu intelecto
Como se a vida fosse um dia azul,
E as dores se escafedessem ao sol

A verdade tantas vezes machuca
Rasga a nossa pele, incomoda
Bruta, é a verdade que educa
Meia, é a verdade que consola

Carrego as verdades com cuidado
É perigoso transporta-las por aí
Tantas vezes levam à morte
Do amor, da ilusão, da crença
A verdade é cura e veneno,
Uma bomba pronta a explodir
Cada um que escolha se compensa
Dos efeitos da verdade prescindir

Mateus Medina
06/05/2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

Caminhos



Não tenho planos ou direção
Vou traçando o meu traçado
Tentando em vão entrelaçar
O futuro com o passado

E nessa colcha de retalhos
Retalhado entre entreveros
Tantos caminhos mal talhados
Voltam à estaca zero

E quando a jovem manhã canta,
Desencanta o seu brilho
Descortina a vida em canto
Enquanto escolho o meu trilho 

Há quem me diga perdido
Há quem me diga achado;
Entre a partida e a chegada
Importa o caminho trilhado

Mateus Medina
07/05/2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Gargalha!

Gargalha sem pressa, deixa estar!
Do palco o que interessa?
Dura a vida o tempo da peça
Brinca, improvisa, deixa estar

Gargalha sem medo, ora essa!
Não meça o teu gargalhar
Dos monstros na tua floresta
Qual deles conhece o amar?

Gargalha, meu bem, acredita
No sol que te beija a face
Enlaça o farol que indica
Onde o baralho se parte

Gargalha, amor meu, e aceita
Cicatrizes, dores e tombos
Escombros da vida imperfeita;
Divida-os com os meus ombros

Mateus Medina
25/03/2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Verso

O verso me arrasta, me desgasta
Sobrepõe-se à minha vontade
Sobrevive a qualquer escombro
Grita, mesmo quando calo,
Anda, mesmo quando paro
O verso tem vida própria

Me obriga a vomita-lo, escreve-lo
Ainda que tenha as mãos feridas
Cansada, a boca pronuncia
A chegada do verso ditador
Dita a dor, a alegria, pouco importa
O verso não respeita nada

E mesmo quando nada digo
O verso se exibe por prazer
Pelo amor que nutre por si próprio
Ele se veste, se mostra e sorri
Cínico, excêntrico, desonesto
O verso nasce do orgulho

Mateus Medina
29/04/2013




terça-feira, 23 de abril de 2013

Hoje não

 Há muito p'ra dizer, mas hoje não
O dia amanheu preguiçoso
Na rede, entre bananeiras
Hoje, me apetece o sossego
Fingir que não passa nada,
Qu'eu não passo em passo errado
Fingir que sou apenas um coitado
Vitma das circunstâncias

Há muito p'ra fazer, mas hoje não
A brisa que me acarinha a face
Me traz a falsa calma (meu desastre)
Sopra frescura para o cárcere
Hoje me limito a acreditar
Que se eu cantar, o amanhã vem diferente

Há estrada a percorrer, mas hoje não
A lua lá no céu faz sua magia
Como boa atriz, me ludibria
Rouba toda minha atenção
Hoje vou fingir que a lua cheia
Será para sempre brilhante
Tiro um livro qualquer da estante
E fica a viagem p'ra amanhã

Mateus Medina
22/04/2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Se quiseres voltar



Rabisco o teu nome no chão
Que é pr'eu não esquecer
Por que partiste tão cedo?
Não é fácil compreender

Vou desenhando teu rosto
Pelas paredes da sala
Pr'a não esquecer teu sorriso
Livrar-me da dor que não cala

A noite faz de mim presa
Da falta que fazes no lar,
Do breu que me vem abraçar

Então, deixo as luzes acesas
Pois se resolveres voltar
Não te quero a tropeçar

Mateus Medina
15/04/2013





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Canção perdida



Te escrevi uma canção e guardei
Nunca cheguei a cantar
Dói, dedilhar o violão,
Acordar impossíveis desejos
- Moribundos na beira estrada -
Não é medo, nem nada
É só a vida que cobra o preço
Pela vida que vivemos

É bela - e triste - a canção que escrevi
Tem o teu nome e os teus olhos,
Tua boca entreaberta, a espera
Do último beijo que não demos
Tem flores, pólen e primavera
Tem vinho, sorrisos e desejo
É pena que a pobre seja muda

Assovio baixinho a melodia
Distraído, a caminho da vida
Que escolhi ao deixar de escolher;
Viver sem ti é uma canção perdida

Mateus Medina
08/04/2012