terça-feira, 14 de maio de 2013

(In)Convenientes verdades



Não, não carrego só mentiras,
Tenho verdades - incovenientes
Das que ardem nos olhos, fustigam
Quer um punhado? Posso te dar
Mas não me venha amaldiçoar,
Caçoar do meu intelecto
Como se a vida fosse um dia azul,
E as dores se escafedessem ao sol

A verdade tantas vezes machuca
Rasga a nossa pele, incomoda
Bruta, é a verdade que educa
Meia, é a verdade que consola

Carrego as verdades com cuidado
É perigoso transporta-las por aí
Tantas vezes levam à morte
Do amor, da ilusão, da crença
A verdade é cura e veneno,
Uma bomba pronta a explodir
Cada um que escolha se compensa
Dos efeitos da verdade prescindir

Mateus Medina
06/05/2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

Caminhos



Não tenho planos ou direção
Vou traçando o meu traçado
Tentando em vão entrelaçar
O futuro com o passado

E nessa colcha de retalhos
Retalhado entre entreveros
Tantos caminhos mal talhados
Voltam à estaca zero

E quando a jovem manhã canta,
Desencanta o seu brilho
Descortina a vida em canto
Enquanto escolho o meu trilho 

Há quem me diga perdido
Há quem me diga achado;
Entre a partida e a chegada
Importa o caminho trilhado

Mateus Medina
07/05/2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Gargalha!

Gargalha sem pressa, deixa estar!
Do palco o que interessa?
Dura a vida o tempo da peça
Brinca, improvisa, deixa estar

Gargalha sem medo, ora essa!
Não meça o teu gargalhar
Dos monstros na tua floresta
Qual deles conhece o amar?

Gargalha, meu bem, acredita
No sol que te beija a face
Enlaça o farol que indica
Onde o baralho se parte

Gargalha, amor meu, e aceita
Cicatrizes, dores e tombos
Escombros da vida imperfeita;
Divida-os com os meus ombros

Mateus Medina
25/03/2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Verso

O verso me arrasta, me desgasta
Sobrepõe-se à minha vontade
Sobrevive a qualquer escombro
Grita, mesmo quando calo,
Anda, mesmo quando paro
O verso tem vida própria

Me obriga a vomita-lo, escreve-lo
Ainda que tenha as mãos feridas
Cansada, a boca pronuncia
A chegada do verso ditador
Dita a dor, a alegria, pouco importa
O verso não respeita nada

E mesmo quando nada digo
O verso se exibe por prazer
Pelo amor que nutre por si próprio
Ele se veste, se mostra e sorri
Cínico, excêntrico, desonesto
O verso nasce do orgulho

Mateus Medina
29/04/2013




terça-feira, 23 de abril de 2013

Hoje não

 Há muito p'ra dizer, mas hoje não
O dia amanheu preguiçoso
Na rede, entre bananeiras
Hoje, me apetece o sossego
Fingir que não passa nada,
Qu'eu não passo em passo errado
Fingir que sou apenas um coitado
Vitma das circunstâncias

Há muito p'ra fazer, mas hoje não
A brisa que me acarinha a face
Me traz a falsa calma (meu desastre)
Sopra frescura para o cárcere
Hoje me limito a acreditar
Que se eu cantar, o amanhã vem diferente

Há estrada a percorrer, mas hoje não
A lua lá no céu faz sua magia
Como boa atriz, me ludibria
Rouba toda minha atenção
Hoje vou fingir que a lua cheia
Será para sempre brilhante
Tiro um livro qualquer da estante
E fica a viagem p'ra amanhã

Mateus Medina
22/04/2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Se quiseres voltar



Rabisco o teu nome no chão
Que é pr'eu não esquecer
Por que partiste tão cedo?
Não é fácil compreender

Vou desenhando teu rosto
Pelas paredes da sala
Pr'a não esquecer teu sorriso
Livrar-me da dor que não cala

A noite faz de mim presa
Da falta que fazes no lar,
Do breu que me vem abraçar

Então, deixo as luzes acesas
Pois se resolveres voltar
Não te quero a tropeçar

Mateus Medina
15/04/2013





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Canção perdida



Te escrevi uma canção e guardei
Nunca cheguei a cantar
Dói, dedilhar o violão,
Acordar impossíveis desejos
- Moribundos na beira estrada -
Não é medo, nem nada
É só a vida que cobra o preço
Pela vida que vivemos

É bela - e triste - a canção que escrevi
Tem o teu nome e os teus olhos,
Tua boca entreaberta, a espera
Do último beijo que não demos
Tem flores, pólen e primavera
Tem vinho, sorrisos e desejo
É pena que a pobre seja muda

Assovio baixinho a melodia
Distraído, a caminho da vida
Que escolhi ao deixar de escolher;
Viver sem ti é uma canção perdida

Mateus Medina
08/04/2012

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Além do colorido

Portrait of Emy, 1919 (Karl Schmidt-Rottluff)

Parte de mim se espanta,
Enquanto a outra entristece
Escapa um pequeno sorriso?
Não tenho muita certeza

Há quem veja a esperança,
Eu vejo fogo, somente fogo!
E toda a confusão que se segue

Ouço os murmúrios assustados,
Os lamentos dos incapazes
Não é seguro andar pelas ruas
Há olhos postos em cima de nós

Há quem veja o nascer do sol
Eu vejo a morte da lua
Indefesa, pálida, nua

Mateus Medina
05/04/2013




terça-feira, 2 de abril de 2013

Soneto para um senhor desavisado



Sente o fétido ar circundante?
Parado, não chama atenção
Veja, o pseudo caminhante
Anda, sem tirar os pés do chão

Esta nuvem por cima de nós
Não vai embora, não senhor
Cada vez mais negra e feroz
Desaguará, não tarda, o rancor

Não se iluda, senhor, com abrigos
Nenhum nos poderá proteger
Da nossa própria ignorância

Que torna os iguais em inimigos
Exaurindo a essência do ser
Imbecis, ébrios de intolerância

Mateus Medina
02/04/2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Com a noite



Diga logo, vá! Tenho pressa!
Imagina se amanhã não dá?
Entalada no tempo, na fresta
Já pensou, não conseguir falar?

Diga logo, vá! Tenho que ir!
O mundo espera que eu corra
E socorra o que ainda há de vir
Diga, antes que a palavra morra!

Depressa, diga de uma vez!
Sei que o tempo parece parado
Montado no futuro, no talvez
Na verdade ele voa apressado

Diga, ou não vá se arrepender
Da palavra calada ser açoite
Diga, antes do dia amanhecer
Não tarda, parto com a noite

Mateus Medina
25/03/2013