terça-feira, 16 de abril de 2013

Se quiseres voltar



Rabisco o teu nome no chão
Que é pr'eu não esquecer
Por que partiste tão cedo?
Não é fácil compreender

Vou desenhando teu rosto
Pelas paredes da sala
Pr'a não esquecer teu sorriso
Livrar-me da dor que não cala

A noite faz de mim presa
Da falta que fazes no lar,
Do breu que me vem abraçar

Então, deixo as luzes acesas
Pois se resolveres voltar
Não te quero a tropeçar

Mateus Medina
15/04/2013





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Canção perdida



Te escrevi uma canção e guardei
Nunca cheguei a cantar
Dói, dedilhar o violão,
Acordar impossíveis desejos
- Moribundos na beira estrada -
Não é medo, nem nada
É só a vida que cobra o preço
Pela vida que vivemos

É bela - e triste - a canção que escrevi
Tem o teu nome e os teus olhos,
Tua boca entreaberta, a espera
Do último beijo que não demos
Tem flores, pólen e primavera
Tem vinho, sorrisos e desejo
É pena que a pobre seja muda

Assovio baixinho a melodia
Distraído, a caminho da vida
Que escolhi ao deixar de escolher;
Viver sem ti é uma canção perdida

Mateus Medina
08/04/2012

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Além do colorido

Portrait of Emy, 1919 (Karl Schmidt-Rottluff)

Parte de mim se espanta,
Enquanto a outra entristece
Escapa um pequeno sorriso?
Não tenho muita certeza

Há quem veja a esperança,
Eu vejo fogo, somente fogo!
E toda a confusão que se segue

Ouço os murmúrios assustados,
Os lamentos dos incapazes
Não é seguro andar pelas ruas
Há olhos postos em cima de nós

Há quem veja o nascer do sol
Eu vejo a morte da lua
Indefesa, pálida, nua

Mateus Medina
05/04/2013




terça-feira, 2 de abril de 2013

Soneto para um senhor desavisado



Sente o fétido ar circundante?
Parado, não chama atenção
Veja, o pseudo caminhante
Anda, sem tirar os pés do chão

Esta nuvem por cima de nós
Não vai embora, não senhor
Cada vez mais negra e feroz
Desaguará, não tarda, o rancor

Não se iluda, senhor, com abrigos
Nenhum nos poderá proteger
Da nossa própria ignorância

Que torna os iguais em inimigos
Exaurindo a essência do ser
Imbecis, ébrios de intolerância

Mateus Medina
02/04/2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Com a noite



Diga logo, vá! Tenho pressa!
Imagina se amanhã não dá?
Entalada no tempo, na fresta
Já pensou, não conseguir falar?

Diga logo, vá! Tenho que ir!
O mundo espera que eu corra
E socorra o que ainda há de vir
Diga, antes que a palavra morra!

Depressa, diga de uma vez!
Sei que o tempo parece parado
Montado no futuro, no talvez
Na verdade ele voa apressado

Diga, ou não vá se arrepender
Da palavra calada ser açoite
Diga, antes do dia amanhecer
Não tarda, parto com a noite

Mateus Medina
25/03/2013









terça-feira, 26 de março de 2013

A morte da cidade

"Nollendorfplatz",  de Ernst Ludwig Kirchner


São tantos os caminhos da cidade
Às vezes quem passa não nota
Pela pressa, pelo desinteresse,
Ou porque a cidade se maloca

São duros os caminhos da cidade
Os pífios fazem muita questão
De nos ludibriar a sanidade
Distorcem a real percepção

Meretriz, paridora de caminhos
Segue escondendo as mazelas
Na agitação dos becos frios
Enquanto a morte prolifera

 O ódio vai crescendo nos esgotos,
Lentamente a cidade transborda
Em breve nos afogaremos - todos!
Até que a cidade esteja morta

Mateus Medina
26/03/2013





sexta-feira, 22 de março de 2013

Ciclo prematuro

 (Capa do álbum "Felicidade interna bruta", da banda Eskimo)

A menina que remava
Chamava minha atenção
Rema, rema, pequenina, 
Pássaros, p'ra onde vão?

As costas quase retas, 
Os braços quase fortes
Rema, rema, pequenina
Qu'esse rio não é de sorte

Lá vai ela sorridente
Escapando com seus sonhos
Rema, rema, pequenina
Que o luar hoje é medonho

Cercada de água escura
Ela segue e não duvida
Rema, rema, pequenina
Leva os segredos da vida

Do outro lado a esperança
A espera qu'ela desça
Rema, rema, pequenina
Antes que o dia anoiteça

A distância de um passo
A margem já se mostra
Rema, rema, pequenina
Vem a morte ali na encosta

Um pezinho já na margem
Outro ainda na jangada
Rema, rema, pequenina
Já não podes fazer nada

Os sonhos se afogaram,
Perdidos para sempre
Rema, rema, pequenina
De volta para o ventre

Mateus Medina
20/03/2012

quarta-feira, 20 de março de 2013

Alguém



Há nesse mundo alguém
Em quem confias sem hesitar?
Dás as mãos de olhos fechados,
E apenas te deixas levar?

Alguém com quem gargalhas - por nada
Por horas, até que o sono vem
Que se enrosca em tuas pernas - tens?
Batalha ao teu lado esse alguém?

Há nesse mundo alguém
Com quem irias a qualquer lugar?
Sem saber sequer p'ra onde
Sem ao menos perguntar?

Alguém que vai na mesma direção
Que guia e se deixa guiar
Que cede e nada em troca pede
Tens esse alguém para amar?

Mateus Medina
15/02/2012

terça-feira, 12 de março de 2013

Depende



Às vezes falo, às vezes me calo
Depende muito da chuva lá fora
Do halo que circunda minh'alma,
Depende da calma... ou falta dela

Às vezes corro, às vezes paro
Depende da pressa, do que interessa
Da preguiça que às vezes assoma
E me paraliza quando me toma

Às vezes rio, às vezes choro
Depende de coisas que desconheço
Tem um preço; a lágrima, o riso
Rio e choro, tudo junto, se preciso

Às vezes fico, às vezes parto
Depende da música no botequim
Se fico estou sempre partindo,
Se parto, fica um pouco de mim

Mateus Medina
11/02/2013



quinta-feira, 7 de março de 2013

Essa coisa



Afaste-se um pouco, é mais seguro
Minhas correntezas partem remos
São caudalosas as correntes
Que espancam minha alma
Nada cessa, nada acalma
Afasta-te, pelo bem do teu futuro

Perscrutar meu lar é um perigo
Há caminhos sem volta, vícios fétidos
As portas fecham-se, tu sufocas
Fica tudo espalhado no sofá
O rastro da alegria que não há
É em si próprio a ilusão de abrigo

Pode vir, mas vá antes que amanheça
É que tenho a alma encharcada
De sombras, veneno e mais nada
Os armários abarrotam de dor
E é impossível arranjar espaço
Para essa coisa que tu chamas amor

Mateus Medina
04/03/2013