terça-feira, 12 de março de 2013

Depende



Às vezes falo, às vezes me calo
Depende muito da chuva lá fora
Do halo que circunda minh'alma,
Depende da calma... ou falta dela

Às vezes corro, às vezes paro
Depende da pressa, do que interessa
Da preguiça que às vezes assoma
E me paraliza quando me toma

Às vezes rio, às vezes choro
Depende de coisas que desconheço
Tem um preço; a lágrima, o riso
Rio e choro, tudo junto, se preciso

Às vezes fico, às vezes parto
Depende da música no botequim
Se fico estou sempre partindo,
Se parto, fica um pouco de mim

Mateus Medina
11/02/2013



quinta-feira, 7 de março de 2013

Essa coisa



Afaste-se um pouco, é mais seguro
Minhas correntezas partem remos
São caudalosas as correntes
Que espancam minha alma
Nada cessa, nada acalma
Afasta-te, pelo bem do teu futuro

Perscrutar meu lar é um perigo
Há caminhos sem volta, vícios fétidos
As portas fecham-se, tu sufocas
Fica tudo espalhado no sofá
O rastro da alegria que não há
É em si próprio a ilusão de abrigo

Pode vir, mas vá antes que amanheça
É que tenho a alma encharcada
De sombras, veneno e mais nada
Os armários abarrotam de dor
E é impossível arranjar espaço
Para essa coisa que tu chamas amor

Mateus Medina
04/03/2013

terça-feira, 5 de março de 2013

'inda lembro




Amanhecia sem pressa, 'inda me lembro
O teu perfume preenchia o ar exausto
Numa manhã preguiçosa de dezembro
Éramos um do outro o antepasto

Ficou p'ra trás o temor da madrugada
O estranhar dos corpos - a novidade
Respiravas baixinho, aconchegada
No meu corpo qu'era todo vontade

Percorremos novamente os caminhos
Dessa vez com outra confiança
Fomos juntos, não cada um sozinho
Fomos prazer, liberdade e esperança

'inda lembro do sorriso no teu rosto
Grudaram em meus lábios as lembraças
Das curvas do teu corpo, do teu gosto
'inda lembro os passos da nossa dança

Mateus Medina
04/03/2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A espera de uma coisa qualquer



Sei como é o frio na barriga
Quando chega a hora de partir
Treme a mão, palpita o coração
A sala encurta, tudo se aperta
É um segundo de desespero
Que se prolonga e se estica
Enquanto o coração se nega
A caminhar, em vez de correr
Vai passar, eu sei e tu também
Mas até lá a dor se espalha,
O medo ri da nossa cara
Somos palhaços fora do circo
Soltam-se as mãos, se desenlaçam
O compasso de espera não termina
Ali em pé, a espera que aconteça
Um milagre, uma coisa qualquer

Mateus Medina
27/02/2013


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Gente não liga



Tá vendo aquele sangue, moço?
Fui eu quem derramou na estrada
Ninguém olhou p'ra mim nem nada
A vida é cheia de desgosto

Tá vendo aquela marca, moço?
Foi onde eu caí gemendo
Ninguém liga prum hômi sofrendo
A vida é cheia de desgosto

Ninguém presta atenção
Ninguém estende a mão
Só há espelho em frente
Gente não liga p'ra gente

Tá vendo aquela sombra, moço?
Ela me perseguiu mais cedo
Os outros ria do meu medo
A vida é cheia de desgosto

Tá vendo aquela pedra moço?
Filha da puta de um tropeço!
E agora já paguei o preço
A vida é cheia de desgosto

Ninguém presta atenção
Ninguém estende a mão
Só há espelho em frente
Gente não liga p'ra gente

Mateus Medina
25/02/2012

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Contra o vento



É impiedoso o vento que fustiga
O deserto que um dia foi mar
Voa areia nos olhos, castiga
É difícil o caminho encontrar

Disperso nas fissuras do tempo
Sou levado ao sabor do acaso
Meu Deus, é tão forte este vento!
Já desponta no horizonte o ocaso

Parecem tão iguais os caminhos
É tudo terra, areia, vento e dor
É mais difícil caminhar sozinho
Sem a luz dos teus olhos; sem amor

Mateus Medina
22/02/2012

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entre a sopa e a morte

"Dos viejos comiendo sopa" (Francisco Goya)
Uma das 14 obras que compõem as "Pinturas Negras", de Goya

Bebe a sopa e cala-te, ó velho!
Tua hora se aproxima a calvalgar
Não serás levado com esmero
Quando a luz dos teus olhos borrar

Tens na pele a culpa entranhada
De maneira que já não se solta
Bebe a sopa, cala-te e mais nada!
Não voltas a passar daquela porta

Será o último, este cínico sorriso
Que inocentes almas molestou
Bebe a sopa, ó estrume enfermiço!
Que a morte vem aí; já apeou

 Mateus Medina
18/02/2012

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Segredos Imersos



Algures na balbúrdia dos meus versos
Intocável, nosso amor remanesce
Outra cara, outro tom - controverso
Mas, 'inda é amor que não se esquece

Por aí, deambulando em confusão
Te ouço vez em quando a cantar
Num tom que é pura persuasão
Recordando os acordes do amar

É indizível teu invisível toque
Baralha os segredos lá no fundo
E algum sempre há de emergir

Não venha a loucura a golope
Fazer de mim um reles vagabundo
Pela vida vagando - atrás de ti

Mateus Medina
11/02/2013


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Vendo-a passar



Passava o dia na janela, vendo-a passar. Não que ela fosse extremamente bela, mas também não era feia. Não parecia feliz nem miserável. Tinha uma expressão neutra, de quem boia numa piscina. Sem ondas.

Andava como quem está parada. Nunca a via sorrir nem chorar. Quando cruzava sua janela, olhava-o sempre nos olhos sem nada dizer. Nem ela, nem ele.

Um dia, sem quê nem pra quê, ela especou-se em frente à janela. Pela primeira vez ele ouviu a sua voz. Pausada, cansada e descontente. Falhavam sílibas pelo meio, num estático soluço seco. Sem lágrimas. O tom absurdamente monocórdio, fazia crer que já o havia explicado o óbvio por mil vezes, ainda assim, sem ser compreendida:

- Quando é que me tomas em tuas mãos? Quando é que me assumes como tua? Quando é que me dás direção?

Pego de surpresa, atônito, ele fez a única pergunta possível:

- Quem é você?

- A sua vida... idiota!

Mateus Medina
13/02/2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A validade do poema



Pode um poema perder a validade,
Ou vale a idade que se embaraça,
No embaraço de se mostrar pequena:
A razão, a verdade, o poema?

Tem validade a vaidade do poema,
Ou só aumenta com a idade a avançar,
A versar sobre a importância suprema
Do verso, do inverso, do versar?

Será a idade do poema a validade,
Ou em verdade será como o vinho,
Pelo caminho aumenta a autoridade:
Admirado, nunca aberto, sozinho?

Mateus Medina
12/02/2012