terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entre a sopa e a morte

"Dos viejos comiendo sopa" (Francisco Goya)
Uma das 14 obras que compõem as "Pinturas Negras", de Goya

Bebe a sopa e cala-te, ó velho!
Tua hora se aproxima a calvalgar
Não serás levado com esmero
Quando a luz dos teus olhos borrar

Tens na pele a culpa entranhada
De maneira que já não se solta
Bebe a sopa, cala-te e mais nada!
Não voltas a passar daquela porta

Será o último, este cínico sorriso
Que inocentes almas molestou
Bebe a sopa, ó estrume enfermiço!
Que a morte vem aí; já apeou

 Mateus Medina
18/02/2012

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Segredos Imersos



Algures na balbúrdia dos meus versos
Intocável, nosso amor remanesce
Outra cara, outro tom - controverso
Mas, 'inda é amor que não se esquece

Por aí, deambulando em confusão
Te ouço vez em quando a cantar
Num tom que é pura persuasão
Recordando os acordes do amar

É indizível teu invisível toque
Baralha os segredos lá no fundo
E algum sempre há de emergir

Não venha a loucura a golope
Fazer de mim um reles vagabundo
Pela vida vagando - atrás de ti

Mateus Medina
11/02/2013


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Vendo-a passar



Passava o dia na janela, vendo-a passar. Não que ela fosse extremamente bela, mas também não era feia. Não parecia feliz nem miserável. Tinha uma expressão neutra, de quem boia numa piscina. Sem ondas.

Andava como quem está parada. Nunca a via sorrir nem chorar. Quando cruzava sua janela, olhava-o sempre nos olhos sem nada dizer. Nem ela, nem ele.

Um dia, sem quê nem pra quê, ela especou-se em frente à janela. Pela primeira vez ele ouviu a sua voz. Pausada, cansada e descontente. Falhavam sílibas pelo meio, num estático soluço seco. Sem lágrimas. O tom absurdamente monocórdio, fazia crer que já o havia explicado o óbvio por mil vezes, ainda assim, sem ser compreendida:

- Quando é que me tomas em tuas mãos? Quando é que me assumes como tua? Quando é que me dás direção?

Pego de surpresa, atônito, ele fez a única pergunta possível:

- Quem é você?

- A sua vida... idiota!

Mateus Medina
13/02/2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A validade do poema



Pode um poema perder a validade,
Ou vale a idade que se embaraça,
No embaraço de se mostrar pequena:
A razão, a verdade, o poema?

Tem validade a vaidade do poema,
Ou só aumenta com a idade a avançar,
A versar sobre a importância suprema
Do verso, do inverso, do versar?

Será a idade do poema a validade,
Ou em verdade será como o vinho,
Pelo caminho aumenta a autoridade:
Admirado, nunca aberto, sozinho?

Mateus Medina
12/02/2012

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O que há de vir?

 
O Balanço, de Jean Honoré Fragonard


Para lá e para cá - segue o balanço
Que me lança no incógnito infino,
É exultante e vivo o meu grito
Dança pelo ar sem compromisso,
Desmistifica o peso do pesar,
As consequência que virão no advir

O que há de vir?

Do que serve o futuro ponderar
Se num segundo tudo nos escapa?
Mais vale no balanço balançar
Aproveitar a brisa que nos toca,
O Amanhã ainda não é - e não será
Se não saírmos hoje mesmo da toca

Mateus Medina
07/02/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Dependência

Não sirva de desculpa a escuridão
Se falta a luz, que sobre o tato
Que não se troque o abstrato
Por um qualquer concreto,
Fincado conceito, conceituado
Não há luz, não há certezas
E quem precisa delas?
É pelo tato que se tateia
A teia que em silêncio se forma
Quanto mais a luz escasseia
Mais há teia, mais o fogo ateia
Serpenteia a breve chama,
Aquece por tão pouco
Padece aquele que clama
Pela luz, pela chama; está louco

Mateus Medina
07/02/2013


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Verdade aprisionada



Quando o sol beijou-te o rosto
O mundo resolveu dançar
Incrédulo, bêbado de espanto
Pude apenas observar

Como podes ser tão bela?
Que direito tens tu de sorrir?
Uma vez disparada a flecha
Seu curso ela há de seguir

As águas do mar aos teus pés,
Ris da engessada gravidade
Deslizas como se nada fosse
Teu corpo é a prisão da verdade

Trêmulas, minhas mãos percorrem
Os recantos da luxúria que cedes
Na pressa, sorvo tudo de um gole
No fim... continuo com sede

Mateus Medina
05/02/2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rótulos

Roubo sorrisos, temo a indiferença
Gosto de gente, mas não é sempre
Sou capaz de ditar uma sentença
Paraliso quando me vejo ao leme

Gosto de cama, de olhares juvenis
Sem reservas me entrego ao prazer
Desconfio do que se não diz
Quando em verdade devia se dizer

Me encanta o olhar mudo, a leveza
O silêncio que vem no tempo certo
Na mesma mala, alegria e tristeza,
No mesmo fado a praia e o deserto

Sou egoísta, tudo quero só pra mim
Ainda assim não me ouses rotular
Pois se um dia faltar a vida a ti
Dou-te a minha sem pestanejar

Mateus Medina
29/01/2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ataraxia

Toco o céu, me arrasto no chão
E só um segundo separa
O dia quente da noite fria

O destino na palma da mão
Escorrega, foge, não para
Dou comigo a fazer poesia

Nos galhos, as folhas brincam
Balbuciam tal qual segredo
A chegada de um novo dia

Ao longe os trovões roncam
Fazem do vento brinquedo
Transportam minha ataraxia

Ao fim de um ciclo me escondo
Lambendo as feridas abertas
Antes que a pele se desfaça

Batem com enorme estrondo
Tambores de melodia incerta
A vida, a morte, tudo passa...

Mateus Medina
25/01/2013


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Ampulheta



César levava o mundo embrulhado na mochila.

A passos lentos aproximou-se da cadeira do pai. Viu seus ralos cabelos brancos espalhados aqui e ali, com uma enorme cratera no meio. Passou uma mão pela própria cabeça, pensando que jamais teria um filho para rir da sua calvice, como ria da do pai. Na outra, apertava a ampulheta em forma de papel, escorrendo areia pela sentença que se podia ler no fim: "Positivo"

Como sempre, antes de seguir para escola, afagou a meia dúzia de fios brancos e rebeldes na cabeça do seu velho, para em seguida dar um tapa de leve, bem no meio da cratera, ao qual seguia-se um beijo. Roubou da terra todo ar que conseguiu, vestiu seu melhor sorriso e atravessou a sala, parando em frente a porta. Virou-se, encontrando o pai como sempre: debruçado sobre o jornal, olhos apertados, pescando as letras que lhe teimavam em fugir.

Deixou que a ampulheta amarrotada deslizasse para o chão, enquanto um pingo salgado lhe invadia a boca e disse:

─ Pai, tô indo embora.

─ O quê?

─ Tô indo embora!

─ Tranca o portão quando sair.

Mateus Medina
03/01/2013