Desde o nascimento da arte (quando é que foi isso mesmo?) que ela sofre com a censura.
Em tempos, foi uma censura oficial. Mas, mesmo após a queda das ditaduras pelo mundo, a arte continua sofrendo censura. Engana-se aquele que se julga completamente livre para expor a sua arte.
Discutir os limites da arte não é fácil. As regras de boa convivência social impõem, por si só, certos limites de "bom gosto". Aqueles limites que nos impedem de reproduzir artisticamente o que afirmamos com veemência, na proteção ilusória do nosso lar, refúgio sagrado da nossa hipocrisia.
Lendo a notícia sobre a polêmica da "piada do Thor", no filme "Os Vingadores", me veio à mente uma avalanche de questões. Mas, só depois de uma interna exclamação de
"foda-se, esta merda já passa dos limites". Não, não me refiro a piada do Thor. Ela foi engraçada, eu ri. Todo mundo no cinema riu, e em nenhum momento eu racionalizei sobre "os adotados são malvados".
Uma americana qualquer, resolveu criar uma petição online, para que a Marvel "apresente desculpas formais por ter insultado os filhos adotivos e seus pais."
Parem o mundo que eu quero descer! (Foi mal, Rauzito) Onde já se viu exigir desculpas formais por uma piada? Que mundo é esse, que interfere na arte de tal maneira, que uma empresa com o histórico da Marvel, precisa se desculpar por uma piada boba, onde o Thor busca simplesmente se desvincular do Loki, quando descobre que ele já teria matado 80 pessoas?
Se tem uma coisa que a Marvel faz com seus heróis é combater o preconceito. Um exemplo simples é o nascimento dos "X-Men", que surgem como uma clara metáfora a marginalização do diferente, em forma de "mutante".
É cada vez mais frequente a interferência do público em obras de arte. O público palpita, "exige", clama e resolve... Será a morte da arte se não pararmos com isso enquanto é tempo. Se o público direciona uma obra de arte, ela perde completamente a validade. Se o autor deixa de ter o poder sobre os rumos da mesma, isso não é arte, é marketing barato.
Me lembro perfeitamente, no tempo em que eu ainda via novelas, do público exigir o "sumiço" das personagens de Christiane Torloni e
Sílvia Pfeifer em "Torre de Babel", uma novela das 8 (salvo traição da memória), em que elas interpretavam um casal de lésbicas. Sei lá porque diabos, o "público brasileiro" se sentiu ofendido (ao contrário do que se passa com as "banheiras do Gugu" e equivalentes). Não pode dar protagonismo a gay na TV. Que coisa tão imoral! E assim, as personagens foram mortas. Vergonhoso, hipócrita e preconceituoso... mas foi o público, o público pode...vivemos na era de agradar o consumidor, em detrimento arte, assim, a novela retomou os bons ibopes e "a família brasileira" ficou toda feliz. Morte aos gays!
Voltando ao pobre coitado do Thor, um trecho da reportagem diz que, segundo as ONGs pró adoção, a piada
"dissemina preconceito, fazendo uma associação imediata entre ter sido adotado e ser "do mal".
Que coisa tão estúpida! Em momento nenhum a mensagem passada é essa. A única "mensagem" que a piada passa é:
"Ops! Se ele já matou tanta gente e é do mau, eu não tenho nada a ver com esse sujeito". Se fosse o Thor o adotado, e a piada fosse feita ao contrário, aí seria "politicamente correto" e estaria tudo bem (ou será que há ONGs pró filhos de sangue também?).
Qualquer dia, quando os marcianos aparecerem por aí, vão exigir de Hollywood indenizações milionárias, por terem retratado os coitados tão verdes, tão feios, tão cabeçudos (eu disse cabeçudos? Não... eu quis dizer "com a cabeça bastante avantajada", me desculpem).
A ânsia em parecer tão politicamente correto está nos expondo ao ridículo. O humor vai ficando cada dia mais difícil de ser feito sem ser processado, acuado, obrigado a se desculpar. Tão triste nos tornamos, quando cada vez mais, vamos perdendo a capacidade de rir de nós mesmos.