quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Com os pés fincados



Quando o vento vem;  furioso
Pronto a nada deixar de pé
Bato no peito; orgulhoso
De nunca abandonar minha fé

Quando vêm as águas; em revolta
Desejosas de me afogar
Finco meus pés na areia
Sou filho nascido do mar

Quando a noite tudo toma
Buscando em meus olhos temor
Se engana, julgando-se dona
Do que é só meu: minha dor

Quando a dor massacra e não cessa
Acredita me enlouquecer
Não sabendo que não tenho pressa
O tempo irá me reerguer

Mateus Medina
14/12/2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

50 Perguntas que Libertam a Mente: Resposta nº26

26. Você preferiria perder suas velhas recordações ou nunca poder construir memórias novas?

Preferia perder as antigas.


Com toda dor de perder memórias antigas - e isso seria completamente trágico -, considero que seria ainda mais trágico, nunca poder construir novas. Seria o equivalente a viver... sem viver.

Construir novas memórias é sinal de que se está vivo e ativo.


Estou considerando a pergunta de maneira filosófica e não literal.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O teu nome é perigo



Tens esses olhos tão castanhos
Que disfarçam-se de negros
Quando querem se esconder
Da cobiça de estranhos

Tens esse sorriso franco
Tão aberto e luminoso
Não permite indiferença
Aos que te querem tanto

Tens esse jeito meigo
De quem possui o mundo
E tens a força dos grandes
Que vencem o absurdo

Há ainda o que escondes
De quem flerta contigo
Armas secretas e letais
O teu nome é perigo

Mateus Medina
05/12/2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sobre ser autobiográfico...

Há muitos, muitos anos, eu li uma entrevista do Herbert Viana, onde ele falava sobre o processo de composição, entre outras coisas.

Já naquela época, eu escrevia poesia (ou pelo menos, eu chamava aquilo de poesia…), e fiquei muito intrigado com algo que ele disse sobre a qualidade de uma composição.

Ele se referia a letras de músicas, mas na minha perspectiva, o que foi dito aplica-se a qualquer composição artística. Ele disse algo parecido com isso: “Limitar-se a compor canções autobiográficas, diminui a qualidade da obra. Desde o momento que deixei de ser autobiográfico em minhas composições, a qualidade da minha obra melhorou muito”.

Se não foi assim, foi parecido…

Nunca consegui esquecer essa entrevista. Ela me fez ler tudo o que eu havia escrito até ali, e realmente consegui constatar, passados alguns anos, que as minhas obras que vieram a seguir a essa entrevista, possuíam uma qualidade literária muito superior.

Noventa por cento daquilo que escrevo, nasce de uma “cena” imaginada. Um “flash”, que pode ser desencadeado por uma infinidade de situações, desde uma imagem, a uma música, uma frase, um olhar… a partir daí, eu invento uma sequência, um passado, um presente, um futuro… e assim nascem a maioria das minhas poesias. Eu deveria ter tido vergonha na cara e ter sido cineasta, mas isso é outra história…

Eu não preciso matar alguém para escrever sobre assassinato. Não preciso roubar para escrever sobre roubo. Não preciso estuprar para escrever sobre estupro. Tudo isso está aí, pelo mundo, nos rodeando. É só “pegar” e poetizar. Simples como isso.

No lado oposto disso, nada nos diz que quando estamos tristes, temos que escrever sobre tristeza. Que se estamos alegres, devemos escrever sobre alegria. Se estamos com raiva, precisamos escrever raivosamente... eu sempre exercitei o contrário, inclusive.

O caminho mais fácil é pegar aquilo que está ali "à mão" e jogar num "papel". Mas não é esse o caminho mais artístico, que busca explorar a infinidade de sentimentos, sensações e possibilidades. Novamente, Herbert Viana entra com a sua lição: Não se limite a escrever sobre o que sente.

Como a intenção desse blog é divulgar a minha arte, ainda que seja só para os amigos e conhecidos, dando uma "zapeada" nele, percebi que precisava reler mentalmente aquela entrevista, e me lembrar que o mundo não gira ao meu redor. Ninguém deve se crer tão importante ao ponto de fazer de si mesmo uma obra de arte. Se algum dia, você for importante a esse nível, alguém escreverá uma obra de arte sobre você…

So, let's move on!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um passo de cada vez



Primeiro um pé, depois o outro
O medo da queda; latente
Tente caminhar um pouco
Não fique paralisado e dormente

A dúvida nos passos seguintes
O receio de nunca alcançar
Tudo não é mais que um palpite
Por falta de onde se agarrar

A medida que avanças, percebes
Surgirem inesperados suportes
Aceita a ajuda, persegue!
Reprime a dor de antigos cortes

Não olhe para trás a procura
De ver o caminho ensanguentado
Apenas aceite: a tua cura
É fruto do sangue derramado.

Mateus Medina
03/11/2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Reconstrução


Quando o céu começa a passar
Do límpido azul ao negro
Sente-se a tempestade no ar,
O coração engasgado de medo

Violentos raios cruzam o céu
Num espetáculo horripilante
Degustamos o amargar do mel
Esperando o próximo instante

Contamos que a tempestade passe
Não sem alguma confusão
Fica sempre algum impasse
Dúvida, medo, solidão

Resta reerguer-se nos destroços
Reparar o que tem reparação
Levantar o alicerce do que é nosso
Duro trabalho para o coração

Mateus Medina
28/11/2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A minha morte (Parte II)



É brutal ser arrancado da bolha
E jogado no meio do nada,
Onde buracos negros sorridentes
Sugam toda a vida que há
Não enxerguei a foice,
Não vi o manto negro,
Nem senti o frio congelante
Estive distraído
A morte não é sempre igual
Não tem o rosto pálido,
Nem é sobrenatural
A morte é viva!
A minha morte vive,
E vive mais do que eu
A morte é cotidiana e vulgar
Não faz alarde, não chama atenção
Mina a alegria, simplesmente
Suga a vontade e a esconde
Num canto desconhecido,
Para que não se encontre
A morte é uma dor lancinante
Um canivete espetado no peito
Girando freneticamente
Até que a última gota de sangue
Se esvaia sem retorno

Mateus Medina
25/11/2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A minha Morte (parte I)

Quem diz que não dói morrer
Ou mente, ou nunca morreu
Quem não sabe, precisa saber
Para que não morra o “eu”

Umas mortes são como dormir
De repente se acorda... e pronto
Outras, como em buracos cair
Sai-se de um, entra-se noutro

A minha morte dói de tal maneira
Que nem a vida um dia foi capaz
De me ferir com flecha tão certeira
Como esta, que a morte me traz

Pensei estar mais preparado
Para a vinda desta senhora
Mas, como estar conformado
Se para mim ainda não era hora?

Mateus Medina
24/11/2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Meu silêncio



Meu silêncio não é tão-somente
Um fardo encerrado em si mesmo
Vai além da ferida a vista,
Da agonia calada na garganta
Tapada por sangue seco
É um castigo
É o avesso do próprio umbigo,
A revolta do mar contra o barco
Meu silêncio é doença
Se espalha sem chamar atenção
Aos poucos causa dormência
Explode mudo em solidão
Meu silêncio é o preço
O troco da implacável vida,
A prisão necessária e dolorosa
Que umas (poucas) vezes cura
E outras (muitas) enlouquece
Meu silêncio é a sobra,
É simplesmente o que me resta
Na vã tentação de gritar
Aos ouvidos surdos e impassíveis
O tamanho da minha dor e penar
Meu silêncio é efeito, não é causa
É o indesejado amargor,
Ministrado de uma só vez
Sem direito a lutar contra o revés
Anunciado em tempos de barulho
Meu silêncio é orgulho

Mateus Medina
21/11/2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pela Janela



Passavas pela rua, desfilando
Bem juntinho a minha janela
Dizias o meu nome, cantando
Tinhas a voz de primavera

De lá de dentro não percebia
Que para fora nunca olhava
Ouvia tua voz, não reagia
Parecia que distante estavas

Cansaste daquela canção
Cantaste ainda outras tantas
Fui punido pela desatenção
Perdi o teu canto que encanta

Agora, eu de fora da janela
Batendo em total desespero
Implorando pela canção; aquela
Que me cantaste com desvelo

Mateus Medina
16/11/2011