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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Uma certeza basta

 

     Sua mala jazia aberta em cima da cama. Lentamente, deslizavam para dentro pequenas peças de roupa, e enormes pedaços de história.

     Me julgando oculto pela escuridão do corredor, apenas a observava. Nada mais havia a dizer. Estava tudo dito e decidido.

     Fui denunciado pela minha ansiosa respiração. Ela inspirou profundamente, enquanto levantava o olhar e me mirava, ao mesmo tempo em que vestia o seu melhor sorriso sem graça.

     - Tem certeza que quer partir? - Perguntei, como se não perguntar, fosse falta de educação.

     - Não, não tenho - Respondeu-me, soprando todo o ar de uma só vez.

     - E vai, mesmo assim? - Retorqui, baralhado entre a forma e o conteúdo.

     - Não tenho certeza se quero partir. Mas, tenho certeza que não quero ficar.

Mateus Medina
06/03/2012

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Gatilhos da Saudade





          Tinham acabado de voltar do enterro de um dos seus tios. Um daqueles que ela não via há mais de 10 anos.

          Enroscada no colo do pai, tinha novamente cinco anos. Ali, não tinha nada a temer ou qualquer preocupação. Ali, o tempo parava e ela podia ser criança novamente.

         - Pai, é tão confuso... quando recebi a notícia, foi como se não sentisse nada. Como se o tio Arnaldo fosse um estanho...

         - Você já não o via há quanto tempo? Doze anos? É normal o distanciamento, querida.

         - Não sentir vontade de chorar? Em nenhum momento? É normal? Ele era o meu tio preferido.

         - Há alguma lei que te obrigue a chorar? Nem sempre um rio de lágrimas espelha a face do amor.

         Enquanto o pai ainda terminava a frase, ela chorou.

         Finalmente. Compulsivamente.

         Ele esperou até os soluços encontrarem o caminho do silêncio, e então perguntou:

         - Por que agora?

         - Você afastou o cabelo da frente dos meus olhos, examente do jeito que ele fazia.


Mateus Medina
01/08/2013


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Vendo-a passar



Passava o dia na janela, vendo-a passar. Não que ela fosse extremamente bela, mas também não era feia. Não parecia feliz nem miserável. Tinha uma expressão neutra, de quem boia numa piscina. Sem ondas.

Andava como quem está parada. Nunca a via sorrir nem chorar. Quando cruzava sua janela, olhava-o sempre nos olhos sem nada dizer. Nem ela, nem ele.

Um dia, sem quê nem pra quê, ela especou-se em frente à janela. Pela primeira vez ele ouviu a sua voz. Pausada, cansada e descontente. Falhavam sílibas pelo meio, num estático soluço seco. Sem lágrimas. O tom absurdamente monocórdio, fazia crer que já o havia explicado o óbvio por mil vezes, ainda assim, sem ser compreendida:

- Quando é que me tomas em tuas mãos? Quando é que me assumes como tua? Quando é que me dás direção?

Pego de surpresa, atônito, ele fez a única pergunta possível:

- Quem é você?

- A sua vida... idiota!

Mateus Medina
13/02/2013

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Ampulheta



César levava o mundo embrulhado na mochila.

A passos lentos aproximou-se da cadeira do pai. Viu seus ralos cabelos brancos espalhados aqui e ali, com uma enorme cratera no meio. Passou uma mão pela própria cabeça, pensando que jamais teria um filho para rir da sua calvice, como ria da do pai. Na outra, apertava a ampulheta em forma de papel, escorrendo areia pela sentença que se podia ler no fim: "Positivo"

Como sempre, antes de seguir para escola, afagou a meia dúzia de fios brancos e rebeldes na cabeça do seu velho, para em seguida dar um tapa de leve, bem no meio da cratera, ao qual seguia-se um beijo. Roubou da terra todo ar que conseguiu, vestiu seu melhor sorriso e atravessou a sala, parando em frente a porta. Virou-se, encontrando o pai como sempre: debruçado sobre o jornal, olhos apertados, pescando as letras que lhe teimavam em fugir.

Deixou que a ampulheta amarrotada deslizasse para o chão, enquanto um pingo salgado lhe invadia a boca e disse:

─ Pai, tô indo embora.

─ O quê?

─ Tô indo embora!

─ Tranca o portão quando sair.

Mateus Medina
03/01/2013

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Admiração



Encarava o espelho com tamanha admiração que até sorria. Estava impecável. Sua imagem era, afinal, do jeito que sempre desejara. Estava orgulhoso, radiante, quando o seu filho entrou no quarto e disse:

- Pai, quando eu crescer quero ser igual a você.

Lutando para conter as lágrimas que abriam caminho pelos seus olhos, abaixou-se ao lado do filho e o abraçou, para a seguir sussurrar-lhe aos ouvidos:

- Nunca mais repita tamanha bobagem.

Mateus Medina
10/12/2012




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Inevitável



Sentado na poltrona, de costas para a porta, seu Genaro aguardava paciente. Sempre soube que esse dia chegaria. 

Uma vela quase a acabar, marcava o tempo que lhe restava, jorrando pelo quarto um resquício de luz cor de laranja, sem que nenhum calor daí emanasse.

— Aqui em cima - disse com convicção, enquanto pensava "valeu a pena".

Não se ouvia qualquer barulho, mas seu Genaro sabia que o destino subia as escadas. Ereto e inabalável, optou por apagar a vela, antes que ela se apagasse.

Mateus Medina
29/11/2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Acredite em mim





Por trás do vidro embaçado, tinha o rosto amarrotado, tal qual o vestido.

Observava com atenção, a espera que ele olhasse para trás, que a visse ali, humilhantemente colada à janela, mendigando o perdão pelo arrependimento tardio. Enquanto os segundos atrasavam-se, transmutando-se em horas para o seu desconforto, o coração contorcia-se na boca do estômago.

Ele virou-se.

Ela endireitou-se e sorriu. Tinha vencido.

Correu à porta, passando as mãos pelo vestido amarrotado, limpando as lágrimas que teimavam em escorrer. Quando a campainha tocou, sorriu novamente, suspirou e fez uma prece, passando nervosamente os dedos pelas contas do terço que trazia pendurado ao pescoço. Agradeceu ao bom Deus pelo perdão do seu amado. Seria tudo como antes.

Abriu a porta e jogou-se em seus braços. Ele abraçou-a, beijou-lhe os lábios e sorriu, antes de lhe sussurrar aos ouvidos:

"Eu te disse que nunca mais olhasse para mim".

Um disparo. Um estouro.

Mateus Medina
19/09/2012